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Guil
Hoje, no vôo de Frankfurt para Düsseldorf, ia um artista ao meu lado.
A princípio nao me apercebi, parecia apenas um senhor de ar cansado, aparentando cinquenta e muitos anos mas de rosto marcado por uma espécie de fadiga que se sentia mais do que se via. O olhar era tranquilo, como o de uma criança.
Sentou-se no banco do meio, entre o meu lugar e o de uma rapariga de óculos e pouco depois adormecia, de cabeca pendendo para a frente.

Ainda antes do avião levantar vôo, olhei para ele e vi-o de novo acordado. Tinha agora nas mãos um pequeno caderninho de folhas quadriculadas, tirado não sei bem de onde. Na página da esquerda tinha duas entradas com as datas de 14 e 15 de Dezembro. Parecia um diário, mas escrito numa língua que eu não compreendi - pareceu-me alemão.

Só isto já faria dele um artista, alguém com arte dentro de si. Trazer um caderninho sempre consigo, escrever numa letra miudinha e certa o que vai acontecendo, pensamentos, reflexões. Um weblog à moda antiga, como diria um certo amigo meu... Nos tempos de hoje, em que toda a gente viaja de avião a trabalhar em computadores portateis ou a ler um livro ou a dormir simplesmente, aqui estava um senhor que puxava do seu caderninho, pronto a escrever mais uma entrada, "17 Dez...." (de facto, acabou por não a escrever, mas o que conta é a sua intenção, o facto de realmente ter consigo o caderninho).

Mas não foi só por isso que percebi que estava ali um artista. Tinha reparado em algo peculiar quando ele chegou - trazia um saco grande ao ombro e um pequeno saquinho de plástico com alguns papéis dentro. Assim que encontrou o lugar, tirou o saco do ombro e pousou-o na sua cadeira, guardando o saquinho mais pequeno numa das bagageiras por cima dos lugares. Achei curioso não ter feito antes o inverso - guardar o saco maior na bagageira e ficar com o mais pequeno.
Só à saída percebi - o saco grande era um saco fotográfico. Imagino que aí tivesse guardada a sua máquina e que não se quisesse separar dela colocando-a na bagageira. Se eu fosse um artista como ele, também me custaria separar-me assim da minha máquina ou do meu caderninho-diário onde apontaria as pequenas estórias em torno das minhas viagens e das minhas fotografias.

Quando aterrámos, fiquei a vê-lo sair do avião, saco ao ombro, caderninho guardado no local secreto que só ele conhece, olhos vivos de criança num rosto já cansado por muitas andanças.

Garanto-vos: era um artista.

mood: tired tired

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Uma pequena surpresa que me ofereceram há uns meses e que finalmente ando a devorar:

City, de Alessandro Baricco


editado pela Difel.

(tem site oficial e tudo: city)

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