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Guil
Finalmente estou em casa...

Aterrar, esperar uns bons minutos dentro da avião até abrirem as portas, dirigir-me às bagagens, esperar, esperar, esperar... A minha mala foi a 94ª a sair (sim, eu contei-as...)...

Táxi para casa, largar as malas, despir o fato e a gravata... Uffffff...

Ligar o computador para vir ao lj colocar o que escrevi no avião - agora que releio isto reparo que realmente não diz nada de muito interessante... Mas pronto, fica aqui na mesma, é o relato possível de uma viagem de avião, que é desinteressante por natureza... ;-)

E agora - dormir que se faz tarde!! :-)

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mood: tired tired
a ouvir: Tanita Tikaram - Twist In My Sobriety

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   «(...)Debruçado sobre a balaustrada, contemplei profundezas infindáveis; nuvens e brumas vogavam nos ares; montes e areais ressaltavam no crepúsculo e, abaixo de nós, estendia-se, a abarcar o universo, uma planura desértica. Nessa vastidão destacava-se um homem idoso de aspecto venerável, com longas barbas, que encabeçava melancolicamente um imenso cortejo de algumas dezenas de milhares de homens trajados de negro. Parecia deprimido e desesperado, e Mozart disse:
   "Estás a ver? Aquele ali é o Brahms. Anseia pela libertação, mas daqui até lá ainda tem que esperar um bom bocado".
   Fiquei sabendo que os milhares de figuras negras eram os tocadores das sequências e notas que, segundo o juízo divino, haviam sido supérfluas nas suas partituras.
   "Uma instrumentação densa demais, um desperdício exagerado de materiais", observou Mozart, assentindo com a cabeça.
   E no momento seguinte avistamos Richard Wagner marchando diante de um exército igualmente vasto, e sentíamos como aqueles milhares de homens o impeliam e assediavam; e também a ele o víamos arrastar-se, exausto, com passo martirizado.
   "Quando eu era novo" observei, contristado, "estes dois músicos eram considerados diametralmente opostos".
   Mozart riu.
   "Pois, é sempre assim. Vistos a alguma distância, esses contrastes costumam sempre aproximar-se. A instrumentação sobrecarregada, de resto, não foi falha pessoal do Wagner ou do Brahms, era um erro da sua época".
   "O quê? E é esse erro que estão a expiar assim tão penosamente?" exclamei, acusador.
   "Pois claro. É a via das instâncias. Só quando tiverem pago pelo pecado da sua época é que se há-de ver se ainda fica suficiente valor pessoal para justificar um ajuste de contas".
   "Mas eles não têm culpa nenhuma!"
   "Naturalmente que não. Mas também não têm culpa nenhuma que o Adão tenha trincado a maçã, e no entanto não deixam de ter de expiar por isso".
   "Mas isso é horrível!"
   "Com certeza, a vida é sempre horrível. Não podemos fazer nada, mas somos responsáveis por isso. Vem-se ao mundo, e por esse simples facto, somos logo culpados. Deve ter tido uma catequese muito esquisita, se não lhe ensinaram uma coisa dessas".
   Sentia-me desgraçado até mais não. Via-me peregrino a cair de esgotado, arrastando-me pelo deserto do além, carregado com a pilha de livros dispensáveis que escrevera, com os inúmeros artigos e folhetins, seguido pela multidão dos tipógrafos que tinham tido de trabalhar em tudo aquilo, do exército de leitores que forçadamente haviam engolido tudo aquilo. Meu Deus! E mais, atrás disso ainda vinha o Adão, mais a maçã e todo o resto do pecado original. Portanto tudo aquilo era para expiar, purgatório infinito, e só então caberia perguntar se no meio de tudo aquilo ainda haveria algo de pessoal, verdadeiramente meu, ou se toda a minha actividade e respectivas consequências não passavam de escuma do mar, de jogo absurdo na torrente da existência.»

   (Hermann Hesse, "O Lobo das Estepes")

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